Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Segredo revelado

Segredo revelado

27.08.13

Solidão...


segredo_revelado

 
 

Solidão

 

 

''Se te queres matar, porque não te queres matar?

Ah, aproveita! que eu, que tanto amo a morte e a vida,

Se ousasse matar-me, também me mataria...

Ah, se ousares, ousa!

De que te serve o quadro sucessivo das imagens externas

A que chamamos o mundo?

A cinematografia das horas representadas

Por actores de convenções e poses determinadas,

O circo policromo do nosso dinamismo sem fim?

De que te serve o teu mundo interior que desconheces?

Talvez, matando-te, o conheças finalmente...

Talvez, acabando, comeces...

E de qualquer forma, se te cansa seres,

Ah, cansa-te nobremente,

E não cantes, como eu, a vida por bebedeira,

Não saúdes como eu a morte em literatura!

Fazes falta? Ó sombra fútil chamada gente!

Ninguém faz falta; não fazes falta a ninguém...

Sem ti correrá tudo sem ti.

Talvez seja pior para outros existires que matares-te...

Talvez peses mais durando, que deixando de durar...

A mágoa dos outros?... Tens remorso adiantado

De que te chorem?

Descansa: pouco te chorarão...

O impulso vital apaga as lágrimas pouco a pouco,

Quando não são de coisas nossas,

Quando são do que acontece aos outros, sobretudo a morte,

Porque é a coisa depois da qual nada acontece aos outros...

Primeiro é a angústia, a surpresa da vinda

Do mistério e da falta da tua vida falada...

Depois o horror do caixão visível e material,

E os homens de preto que exercem a profissão de estar ali.

Depois a família a velar, inconsolável e contando anedotas,

Lamentando a pena de teres morrido,

E tu mera causa ocasional daquela carpidação,

Tu verdadeiramente morto, muito mais morto que calculas...

Muito mais morto aqui que calculas,

Mesmo que estejas muito mais vivo além...

Depois a trágica retirada para o jazigo ou a cova,

E depois o princípio da morte da tua memória.

Há primeiro em todos um alívio

Da tragédia um pouco maçadora de teres morrido...

Depois a conversa aligeira-se quotidianamente,

E a vida de todos os dias retoma o seu dia...

Depois, lentamente esqueceste.

Só és lembrado em duas datas, aniversariamente:

Quando faz anos que nasceste, quando faz anos que morreste;

Mais nada, mais nada, absolutamente mais nada.

Duas vezes no ano pensam em ti.

Duas vezes no ano suspiram por ti os que te amaram,

E uma ou outra vez suspiram se por acaso se fala em ti.

Encara-te a frio, e encara a frio o que somos...

Se queres matar-te, mata-te...

Não tenhas escrúpulos morais, receios de inteligência!...

Que escrúpulos ou receios tem a mecânica da vida?

Que escrúpulos químicos tem o impulso que gera

As seivas, e a circulação do sangue, e o amor?

Que memória dos outros tem o ritmo alegre da vida?

Ah, pobre vaidade de carne e osso chamada homem,

Não vês que não tens importância absolutamente nenhuma?

És importante para ti, porque é a ti que te sentes.

És tudo para ti, porque para ti és o universo,

E o próprio universo e os outros

Satélites da tua subjectividade objectiva.

És importante para ti porque só tu és importante para ti.

E se és assim, ó mito, não serão os outros assim?

Tens, como Hamlet, o pavor do desconhecido?

Mas o que é conhecido? O que é que tu conheces,

Para que chames desconhecido a qualquer coisa em especial?

Tens, como Falstaff, o amor gorduroso da vida?

Se assim a amas materialmente, ama-a ainda mais materialmente:

Torna-te parte carnal da terra e das coisas!

Dispersa-te, sistema físico-químico

De células nocturnamente conscientes

Pela nocturna consciência da inconsciência dos corpos,

Pelo grande cobertor não-cobrindo-nada das aparências,

Pela relva e a erva da proliferação dos seres,

Pela névoa atómica das coisas,

Pelas paredes turbilhonantes

Do vácuo dinâmico do mundo...''


(Álvaro de Campos)

 

 

 

 

segredo revelado:  ''Ninguém faz falta; não fazes falta a ninguém... Sem ti correrá tudo sem ti''. Esta frase resume bem todo o poema de Álvaro de Campos , heterónimo de Fernando Pessoa, esse génio da cultura portuguesa.
A grande verdade , mais ou menos dolorosa, consoante tenhamos percepção ou não desta realidade, é que ninguém faz falta e um dia que alguém morra , por muito que se sinta a ausência fisica dessa pessoa, o mundo continuará a existir e tudo correrá bem. 
Aliás , alguns de nós , como eu me sinto hoje, não fazem falta a ninguém. Se já é assim em vida, puuf, depois de ''bater a bota'' até no caixão devem cuspir.

03.09.10

a morte depois da vida


segredo_revelado

Qual é a coisa que temos como certa, logo desde o nosso primeiro minuto de vida?  A morte.

Ninguém lhe foge , independentemente da idade , do estatuto social, da riqueza, da beleza , da bondade (ou não),das crenças religiosas,...

A morte deve ser o acontecimento mais democrático desta nossa sociedade. Chega para todos.. chega a todos.

Apesar de saber que a morte é inevitável, não deixa de me fazer  uma certa (muita!) impressão, que ela seja tão imparcial como é, chegada a hora de levar consigo mais uma vida.

Se morrem pessoas , adultas, já octogenárias e com uma longa vida, também morrem jovens adultos, daqueles que ainda nem chegaram à idade com que morreu Cristo, com tantos sonhos por sonhar e realizar, com tantos planos para um futuro melhor. E as crianças!

Moro numa terriola pequena, onde todos se conhecem e onde se sabe quase tudo sobre todos. Numa terrinha com tão poucos acontecimentos capazes de juntar uma grande parte da população, por mais mórbido e estranho que pareça, os funerais são momentos de reunião.

Na última semana, infelizmente , houveram 2 oportunidades de se reunir muita gente. Pena que não fosse por um motivo mais alegre.Pena que fosse uma reunião em redor de um caixão, num ambiente de tristeza e pesar.

 

 

 

Duas mortes, tão iguais , mas tão diferentes.  Morreu um jovem de 28 anos , ainda na flor da idade, casado há menos de 2 anos, cheio de planos imediatos e futuros. Morreu um senhor de 87 anos , casado, com filhos já adultos, com netos, com toda a experiência acumulada durante uma longa vida e , devido à idade avançada , já com poucos planos e projectos.

Duas pessoas tão diferentes em tudo , mas tão iguais quando o coração pára de bater e se pára de respirar. Não importa que um tenha morrido num violento acidente de mota , nem importa que o outro tenha morrido no decorrer de uma operação cirúrgica. Feito o balanço , importa sim que morreram 2 pessoas e que umas quantas dezenas de outras pessoas que lhes eram próximas ,morreram também um pouco e ficaram mais pobres no que toca a riqueza humana.

Em ambos os casos , é impossível dizer que não há sofrimento por parte de familiares e amigos, mas é, a meu ver, muito mais doloroso e criador de sentimentos de revolta, raiva mesmo, a morte de um jovem de 28 anos.

Coitado, pensava ir passar um tempinho de férias a Espanha. Mal ele, ou qualquer um de nós, pensava que nunca iria fazer essa viagem. Fez uma viagem , mas, para todos os que nisso acreditem, para muito mais longe, para o Céu.

Desta vez, nesta viagem , não podes levar a mota , T. Boa viagem T.. Descansa em paz.!

''Ti'' Z., boa jogatana de cartas com os anjos. Descanse em paz!

 

 

 

segredo revelado: Há quem acredite na vida depois da morte. É bem mais reconfortante pensar assim.

Eu não penso assim. A única e grande certeza que tenho a respeito da morte , é que ela um dia chegará também para mim. Se depois da morte há vida eterna? Não sei, mas não creio. Creio sim na morte depois da vida. Essa sim, é uma verdade incontestável.

...

A morte não é nada para nós, pois, quando existimos, não existe a morte, e quando existe a morte, não existimos mais. (Epicuro)

 

Se quiseres poder suportar a vida, fica pronto para aceitar a morte.(Sigmund Freud)

 

Ó doçura da vida: Agonizar a toda a hora sob a pena da morte, em vez de morrer de um só golpe.(William Shakespeare)

 

Para quê preocuparmo-nos com a morte? A vida tem tantos problemas que temos de resolver primeiro.(Confúcio)